terça-feira, 15 de setembro de 2015

O que são os haitianos entre nós?


Um olhar humanitário é preciso, não para explorar sua mão-de-obra, mas refletir.  o texto a seguir, de Rita Siza, nos remete para essa reflexão.

Por que é que ninguém chama refugiados aos imigrantes da América Central?

Sucessivas administrações norte-americanas “encorajaram” a peregrinação para Norte. Agora, os políticos promovem formas de os impedir de entrar no país.
Imigrante das Honduras no México, a caminho dos EUA ELIANA APONTE/Reuters
Centenas de hondurenhos, salvadorenhos, guatemaltecos e mexicanos arriscam a vida, todos os dias, para transpor a fortificada fronteira Sul dos Estados Unidos e construir uma nova vida longe da pobreza extrema, da violência dos gangues armados e do narcotráfico, da instabilidade política e até dos desastres naturais dos seus países. É um fluxo constante e que tem incendiado o debate político eleitoral norte-americano – mas o que os candidatos presidenciais andam a prometer são novas fórmulas para impedir que estas pessoas desesperadas consigam entrar.
Na América, ninguém fala como refugiados nestes milhares de pessoas, que vêm do chamado Triângulo Norte da América Central, mas também da Nicarágua, Colômbia e Venezuela: são considerados, para todos os efeitos, como migrantes que deixam os seus países em busca de trabalho, mesmo os menores de idade. Isto apesar de a maioria dos recém-chegados citar motivações políticas para a sua jornada, e pedir ajuda para solicitar asilo.
O fenómeno, que se verifica desde a década de 80, com picos de procura e períodos de acalmia, foi sendo alimentado pela sucessão de guerras civis e conflitos militares na região. Sucessivas administrações norte-americanas “encorajaram” a sua viagem, com regras especiais ou autorizações extraordinárias de residência por razões humanitárias para as populações afectadas. Mas, entretanto, a agulha virou, quando a procura passou a ser de migrantes económicos e o movimento fez prosperar redes de trabalhadores clandestinos.
Tal como os fugitivos da guerra da Síria, do Iraque, da Eritreia ou do Afeganistão que se acumulam às portas da União Europeia, também os latino-americanos que procuram a “terra prometida” dos Estados Unidos usam rotas testadas para o “contrabando” humano, e pagam a organizações criminosas para encetar a viagem em condições de extremo risco e enorme fragilidade.
Em fuga da violência
Têm sido sobretudo mulheres e menores a tentar fugir da violência das Honduras, El Salvador e Belize, os países com a maior taxa de homicídios do mundo segundo os números oficiais das Nações Unidas. Como nota Denise Gilman, especialista em imigração da Faculdade de Direito da Universidade do Texas, a sua situação enquadra-se no estatuto de refugiado, tal como definido pela legislação internacional, que lhes reconhece o direito à protecção de perigos existenciais, como a guerra e a violência ou a perseguição étnica ou religiosa.
Em 2013, havia 3,2 milhões de cidadãos naturais de países da América Central a residir nos EUA, 90% dos quais provenientes do Triângulo Norte formado por El Salvador, Guatemala e Honduras. Segundo os números do Migration Policy Institute, correspondiam a 7% do total de 41,3 milhões de imigrantes no país. Ao contrário de outros grupos de diferentes geografias – principalmente asiáticos e europeus –, estes imigrantes têm poucas habilitações escolares e profissionais, falam mal inglês e têm rendimentos muito inferiores à restante população: 22% das famílias imigrantes da América Central vivem em situação de pobreza nos EUA, mais do que os restantes imigrantes (18%) e os norte-americanos (10%).
No ano passado, a Administração Obama foi obrigada a tomar medidas extraordinárias para responder a um êxodo latino-americano sem precedentes, e particularmente à chegada de milhares de menores desacompanhados das famílias (cerca de 68 mil, em 2014). O Presidente, Barack Obama, classificou a situação como uma “crise humanitária”: é difícil imaginar os riscos que estas crianças e adolescentes corriam, para que as suas famílias arriscassem mandá-los sozinhos para um país estranho, reflectiu, justificando o “realojamento” extraordinário destas crianças com familiares já nos EUA.
Na sua edição de Agosto, a revista Report on the Americas, publicada pelo North American Congress on Latin America (NACLA), uma organização não-governamental, apresentava o caso de “Osvaldo”, um jovem de 16 anos das Honduras, que foi deportado na fronteira. O seu pai foi assassinado quando ele tinha um ano; quando tinha quatro, foi um tio, e aos cinco mataram o seu avô. Entre os seus oito e 14 anos, outros três tios foram abatidos a tiro; e aos 15 anos, pela primeira vez, tentaram matá-lo a ele. Decidido a escapar ao ciclo de violência, tentou fugir para os EUA, mas foi deportado pelo México ao chegar à fronteira.
No mesmo centro para imigrantes, estavam ainda “Evelin”, uma jovem de 15 anos grávida de sete meses e sob ameaça de morte do seu namorado e pai da criança; ou “Daniela”, uma menina de 13 anos que tentava escapar ao recrutamento da quadrilha Barrio 18 de El Salvador, uma das mais perigosas organizações armadas do país.
Passar mensagem
Entre 2010 e 2014, cerca de um milhão de cidadãos salvadorenhos, guatemaltecos e hondurenhos foram retidos na fronteira dos EUA ou do México e mais de 800 mil acabaram deportados. No último ano, o México reforçou a sua operação para barrar a passagem de imigrantes vindos da América Central e a pressão migratória sobre a fronteira dos EUA diminuiu para metade.
Mesmo assim, os serviços alfandegários detectaram uma nova tendência de aumento das entradas clandestinas a partir de Junho – na região do vale do Rio Grande, as detenções de imigrantes chegaram a um novo máximo de 750 num dia, informou o jornal Monitor da cidade de McAllen, uma das principais portas de entrada no estado do Texas.
De acordo com os dados oficiais do Centro de Imigração e Protecção de Fronteiras, no mês de Julho registou-se um novo recorde anual de detenções de menores que tentavam cruzar sozinhos a fronteira, uma média de 135 por dia. Desde o início do corrente ano fiscal (em Outubro de 2014), já foram detidos 30.862 menores – em Julho, foram 4177. Em comunicado, o departamento atribui este aumento à “degradação das condições [de vida] na América Central, com a pobreza e a violência a serem os factores primários”.
No entanto, o mesmo documento refere que apesar do aumento, “as detenções de indivíduos que transpõem ilegalmente a fronteira permanecem próximo do seu mínimo histórico”, num sinal de que as medidas encetadas produziram o efeito desejado.
A informação das autoridades federais mostra que em 2013 foram deportados 368.644 indivíduos. Um ano depois, no pico da chegada de latino-americanos, os EUA devolveram à procedência 315.943 pessoas.
“A narrativa oficial é de que os Estados Unidos são um país acolhedor e uma nação de imigrantes. Por isso é tão triste e irónico que esses valores se tenham perdido tão rapidamente no confronto político, e que se estejam a deter e deportar milhares de refugiados que em condições normais teriam direito a asilo, apenas para mandar uma mensagem para outros que possam estar a pensar em vir”, lamentou Cecilia Wang, que dirige o projecto de imigração da American Civil Liberties Union (ACLU), em declarações à Associated Press.
Drones contra imigrantes
A questão da imigração e controlo das fronteiras é politicamente explosiva e tomou de rompante controlo do debate, principalmente desde a entrada do magnata do imobiliário, Donald Trump, na corrida pela nomeação republicana à Casa Branca – que logo no anúncio da candidatura, denegriu os imigrantes mexicanos como “criminosos e violadores”. Além das declarações xenófobas, o candidato presidencial prometeu deportar todos os imigrantes a viver nos EUA sem visto e construir um muro de separação entre o México e os EUA ao longo dos 3182 quilómetros da fronteira Sul para impedir o acesso de novas vagas de migrantes – um projecto que orçou em 3,5 mil milhões de dólares.
Mas não é só Trump que tem utilizado o trunfo da imigração para se projectar na disputa republicana. Vários concorrentes falam na revisão da lei que atribui a cidadania automática a todas as crianças nascidas em território americano, e o antigo cirurgião Ben Carson, em segundo nas intenções de voto dos conservadores, até já avançou com a possibilidade de ataques com drones para “proteger” a fronteira da invasão das populações latino-americanas.
Na contracorrente, apenas o ex-governador da Florida, Jeb Bush, que é casado com uma mexicana, defende um sistema que permita a legalização da situação dos cerca de 11,3 imigrantes que entraram nos EUA sem autorização.
O grau de alarme e histeria da retórica política embate, porém, na realidade nua e crua dos números, que não só demonstram que depois de um aumento consistente do número de imigrantes entrados ilegalmente entre a década de 90 e o novo milénio (de 3,5 milhões para 7 milhões de pessoas), e de um pico em 2007, quando se estimava que mais de 12 milhões de residentes fossem indocumentados, a imigração ilegal está em queda nos Estados Unidos.
“A fronteira com o México está mais segura do que nunca esteve nos últimos 40 anos”, disse à NPR Marc Rosenblum, director do Migration Policy Institute, um think tank de Washington dedicado ao estudo das migrações.
Desde o ano 2000, apesar do reforço significativo dos meios de combate à imigração e da construção do muro na fronteira com o México, o número de apreensões caiu 80%, enquanto a probabilidade de detenção aumentou para o dobro. “Cerca de metade daqueles que tentam cruzar a fronteira a salto são detidos pelo menos uma vez”, notou Rosenblum, ressalvando que isso não quer dizer que não voltem a tentar as vezes que forem precisas até conseguirem finalmente entrar nos Estados Unidos.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

A inclusão social no Brasil pós crise.

O texto publicado na Folha de S.Paulo/UOL, é, em meu ver,texto indispensável para melhor compreender o que poderemos viver no Brasil, com as nossas características. Ou já estamos vivendo.

"A nova classe média, que foi integrada pelo consumo, é ingrata a quem lhe dá condições para ascender. Tende a se identificar com os que estão acima dela e não com os que estão abaixo. Também não será leal a outros governos. Para isso, terá que ser intimidada.
O alerta é do sociólogo e economista português Boaventura Sousa Santos, 74. Segundo ele, se houver um ciclo político pós-PT, "ele será dominado pela inculcação do medo que leve à resignação das classes médias e populares".
Na análise do professor da Universidade de Coimbra, há também "o interesse do 'big brother' em que desapareçam de cena governos nacionalistas que retiram ao mercado internacional recursos, como o Pré-Sal e a Petrobrás. Está em curso na região um novo intervencionismo 'soft'".
Nesta entrevista à Folha, concedida por e-mail, ele trata da ascensão de movimentos políticos na Grécia e na Espanha e os rumos da esquerda. "Não estamos em tempo de coerência política. Veja o caso do Syriza. A crise sempre desacreditará a esquerda enquanto esta não aprender a desacreditar a crise", afirma
Fabio Braga/Folhapress
O sociólogo português Boaventura Souza Santos em 2013, durante entrevista
O sociólogo português Boaventura Souza Santos em 2013, durante entrevista 
Folha - Como vai a esquerda pelo mundo? Está em avanço ou em retrocesso?
Boaventura de Sousa Santos - O mundo é demasiado vasto para que possamos ter uma ideia global de como vai a esquerda, até porque em muitas regiões do mundo as clivagens sociais e políticas são definidas em dicotomias distintas da dicotomia esquerda/direita. Por exemplo, secular/religioso, cristão/ muçulmano, hindu/muçulmano, branco/negro, etnicamente X/etnicamente Y.
Na medida em que a dicotomia está presente, a definição dos seus termos é, em parte, contextual. Nos EUA, o partido democrático é um partido de esquerda mas na Europa ou América Latina seria considerado um partido de direita. O partido comunista chinês é de esquerda? Com estas cautelas, há que começar por perguntar: o que é a esquerda?
À escala do mundo só é possível uma resposta minimalista. Esquerda é toda a posição política que promove todos (ou a grande maioria dos) seguintes objetivos: luta contra a desigualdade e a discriminação sociais, por via de uma articulação virtuosa entre o valor da liberdade e o valor da igualdade; defesa forte do pluralismo, tanto nos mídia como na economia, na educação e na cultura; democratização do Estado por via de valores republicanos, participação cidadã e independência das instituições, em especial, do sistema judicial; luta pela memória e pela reparação dos que sofreram (e sofrem) formas violentas de opressão; defesa de uma concepção forte de opinião pública, que expresse de modo equilibrado a diversidade de opiniões; defesa da soberania nacional e da soberania nacional de outros países; resolução pacífica dos conflitos internos e internacionais.
Se esta definição, apesar de minimalista, parecer maximalista, isso é já parte da minha resposta. Ou seja, olhando mundo à nossa volta, um mundo de concentração da riqueza a um nível sem precedentes, de corrução endémica, de racismo e de xenofobia, de esvaziamento da democracia por via da privatização do Estado por parte de interesses poderosos, de concentração midiática, de guerras internacionais e civis de alta e de baixa intensidade, não podemos deixar de concluir que um mundo assim não é um mundo cuidado pela esquerda. É, de fato, um retrato cruel da crise da esquerda.
A crise de 2008 e as medidas de austeridade impulsionaram movimentos de protesto em vários países, como na Espanha e na Grécia. Há uma leitura global para isso? A esquerda soube aproveitar o tempo de crise capitalista?
As medidas de austeridade são o que fora da Europa sempre se chamou política de ajuste estrutural, uma política de que sempre foi campeão o FMI. São sempre medidas de privatização e de concentração da riqueza nacional, de redução das políticas sociais (saúde, educação, pensões etc.) e de diminuição do peso do Estado na economia e na sociedade. Tem-se chamado, a essa política, neoliberalismo.
Essa política foi seguida nos últimos 30 anos em muitas partes do mundo e, portanto, muito antes da crise de 2008. A crise de 2008 foi o resultado da desregulação do capital financeiro na década anterior. E o mais dramático foi que a crise foi 'resolvida' por quem a causou. Daí a situação de volatilidade financeira permanente em que nos encontramos. Na Europa, a crise de 2008 acabou por ser o pretexto para estender a política neoliberal a uma das regiões mais ricas do mundo.
Os movimentos de protesto foram muito distintos mas tiveram, em geral, duas bandeiras: a luta contra a concentração da riqueza (os 99% contra os 1%) e pela democracia real (no caso da Primavera Árabe era luta pela democracia sem adjetivos). Essas duas bandeiras estão inscritas no DNA da esquerda. Mas, na Europa, a esquerda social-democrática (partidos socialistas e partido trabalhista inglês) tinham-se rendido há muito ao neoliberalismo através do que se chamou a terceira via, que, de fato, foi um beco sem saída.
Nessa esquerda não havia alternativa à resolução da crise financeira mesmo que tivesse havido poder para a impor. Na esquerda-à-esquerda houve novidades. Tanto na Grécia como na Espanha houve vitórias importantes, a emergência do Syriza e do Podemos.
Mas o problema maior foi que a esquerda europeia no seu conjunto não se deu conta de que o Banco Central Europeu e o euro tinham sido criados segundo o mais puro catecismo neoliberal. Disso resultou que as instituições europeias são hoje mais neoliberais que os diferentes Estados europeus e têm um poder enorme para intervir neles, sobretudo nos mais pequenos e periféricos.
Na América Latina, houve avanços nos partidos de esquerda no início do século 21. Esse movimento continua? Parou? Há retrocesso?
Foi uma das novidades políticas mais brilhantes do século 21, num momento em que havia poucas boas notícias no mundo. Teve causas e perfis diferentes nos vários países mas, em geral, os partidos ou movimentos de esquerda chegaram ao poder na base de fortes mobilizações populares contra as políticas neoliberais. Essa energia progressista tinha sido anunciada com muito vigor no primeiro Fórum Social Mundial em janeiro de 2001.
Os avanços consistiram, por um lado, na ampliação da classe política governante que passou a incluir membros das classes populares e dos movimentos sociais e sindicais (incluindo presidentes, no caso do Brasil, um operário; no caso da Bolívia, um indígena).
E, por outro lado, em combinar a aceitação das regras impostas pela ordem econômica global com políticas sociais compensatórias (na maioria não universais) que permitiram significativa redistribuição social e que, no conjunto, foram designadas como social democracia à latino-americana.
A ordem econômica global impunha na América Latina um novo extrativismo, uma exploração sem precedentes dos recursos naturais (agricultura industrial, exploração petrolífera e mineira, megaprojetos hidrelétricos e de outras infraestruturas) impulsionado pelo crescimento assombroso da China.
O Estado acumulou recursos (tal como o sistema bancário acumulou lucros), o que permitiu uma redistribuição social significativa e uma grande ampliação do sistema educativo superior. Destes dois pilares surgiu uma nova classe média ansiosa por se integrar na sociedade de consumo.
Qual sua avaliação sobre a grave crise que ocorre no Brasil? Por que a base política da presidente se erodiu tão rapidamente? Há chance de impeachment?
No momento em que o crescimento da China começou a abrandar, este modelo socioeconómico começou a colapsar. Para manter os níveis de redistribuição social seria necessário tributar os mais ricos e isso não é possível em contexto de neoliberalismo. As novas classes médias foram integradas pelo consumo e não pela cidadania.
E pelo tipo de consumo que era próprio das velhas classes médias e altas. Não se pensou em novos tipos de consumo (transportes públicos) nem em qualificar os serviços públicos que tinham agora mais clientes mais exigentes (dos serviços de saúde às universidades).
A nova classe média é tipicamente ingrata a quem lhe dá condições para ascender ao novo estatuto e tende a identificar-se com os que estão acima dela e não com os que estão abaixo.
Os que estão acima são os que sempre olharam com suspeita os governos progressistas. Além de tudo, estes governos traziam uma nova classe política feita de gente de baixo que a gente de cima, numa sociedade classista e cheia de ranço colonial, olhava e olha com desprezo e até com repugnância.
Acontece que esta nova classe política, também ela própria se quis identificar com a gente de cima que sempre tinha dominado o poder político durante muitas décadas. Isto significava governar à moda antiga para atingir objetivos novos. Ou seja, tirar da governação os mesmos benefícios que a gente de cima sempre tinha tirado, quer por vias legais, quer por vias ilegais.
Foi, em parte, por isso que nunca se fez a anunciada reforma política. Foi uma tentação fatal porque os mesmos atos de governo, os mesmos erros e as mesmas ilegalidades têm consequências diferentes quando são cometidos por grupos sociais diferentes. Não há hoje mais corrução no Brasil que nos períodos anteriores; ela é apenas mais visível porque há mais interesse político em expô-la.
E não esqueçamos a dimensão externa da crise política: o interesse do 'big brother' em que desapareçam de cena governos nacionalistas que retiram ao mercado internacional recursos, como o Pré-Sal e a Petrobras. Está em curso na região um novo intervencionismo 'soft' de que iremos ter mais notícias.
Se houver impeachment será um enorme retrocesso para o processo democrático brasileiro, pelo menos até se provar algum ato ilegal em que a presidente esteja envolvida, o que até agora não aconteceu.
Eleita, a presidente adotou medidas contra teses da esquerda e desagradou boa parcela de seus apoiadores nesse campo. O que Dilma deveria fazer para recompor sua base? A crise desacreditou a esquerda?
Não estamos em tempo de coerência política. Veja o caso do Syriza. A crise sempre desacreditará a esquerda enquanto esta não aprender a desacreditar a crise. Em momentos de crise, o número de bilionários continua a crescer, o que significa que a crise não é de todos e que, pelo contrário, há muitos que enriquecem com ela.
No caso do Brasil, tenho pena que a presidente não tenha avançado com a reforma política, o que implicava uma assembleia constituinte originária. Seria uma aposta difícil, mas era o único tema em que a sua base podia ir buscar apoios mais amplos.
Seria o começo da resolução de todos os outros problemas, num país em que o poder do proselitismo endinheirado capturou a grande sede do poder dos cidadãos, o Congresso. Sem essa reforma política não será possível uma política de esquerda sustentável.
Muitos afirmam que o real alvo dessa crise política é o ex-presidente Lula. O sr. concorda com essa visão?
Concordo mas com mágoa. O fato de o PT precisar do regresso de Lula da Silva é a prova de que não pôde ou não soube renovar-se. O presidente Lula tem já assegurado um lugar destacado na história contemporânea
do Brasil.
Muitas análises consideram que o PT deve perder a eleição em 2018 em razão dos escândalos de corrupção e da forte recessão na economia. Qual seu ponto de vista?
Normalmente essas análises visam criar profecias auto-realizadas. A corrupção, venha donde venha, deve ser punida. A recessão econômica não é culpa do governo, tal como o boom anterior não foi criado por ele. A seu crédito está apenas o modo como o utilizou para realizar uma redistribuição social que transformou o país para sempre.
A nova classe média, que agora se mostra ingrata ao PT, não será mais leal durante muito tempo a outros governos. Para que seja leal terá de ser intimidada.
Penso que se houver a curto prazo um ciclo político pós-PT, ele será dominado pela inculcação do medo que leve à resignação das classes médias e populares perante uma quebra do nível de vida que de todos modos vai ocorrer.
Qual o futuro do PT? Alguns defendem que seria necessário refazer as alianças à esquerda para discutir um novo projeto. Estaria no horizonte a formação de um novo partido ou partidos de esquerda, como ocorreu, por exemplo, na Espanha?
Costumo dizer que os sociólogos são bons a prever o passado. As transformações a realizar são de tal ordem que a questão do PT do futuro, ou, se quiser, da esquerda do futuro, implica a questão de saber se há ou não futuro para o PT ou para a esquerda. Na Europa estamos a aprender pela via mais dolorosa que o que se não aprendeu tranquilamente em tempos de bonança tem de se aprender aos solavancos em tempos de borrasca.
Há paralelos entre o PT e o PSOE? Ou entre o PT e o partido socialista francês?
São histórias muito diferentes que enigmaticamente conduzem a presentes com fortes semelhanças. O PT nasceu de movimentos sociais de base popular com a radicalidade discursiva da esquerda-à-esquerda.
Mas com um programa moderado, reverente perante o FMI, e consistindo numa política social-democrática menos universal que a europeia, mas igualmente informada pela ideia de maximizar a justiça social permitida pelo capitalismo.
O PT o PSOE e o PS francês vivem o dilema de já não existir o capitalismo em que podiam florescer. O neoliberalismo transformou a desigualdade social e o individualismo em suprema virtude (o empreendedorismo) e não se sente ameaçado por nenhuma força social que o obrigue a agir de outro modo.
Na Grécia, o Syriza venceu as eleições, o plebiscito, mas acabou cedendo à troica. Quais os reflexos em outros partidos de esquerda? Eles podem ficar desacreditados com a ideia de que não conseguem levar adiante uma alternativa?
O que se passa na Grécia é um desafio total à imaginação política, particularmente à de esquerda. Nas próximas eleições (20 de setembro) o Syriza vai a votos com um programa que é o oposto do aprovado no último congresso do partido. É um programa de austeridade e não de anti-austeridade e é a tradução em grego do memorandum da troika.
Os dissidentes do Syriza criaram um novo partido que vai a votos com o antigo programa do Syriza, acrescentado da proposta da saída do euro e regresso ao dracma. É provável que o Syriza ganhe as eleições. [Alexis] Tsipras pensa mesmo na maioria absoluta, para o que lhe basta ter (segundo o sistema eleitoral grego) cerca de 40% dos votos.
Será imaginável uma aliança pós-eleitoral entre o Syriza e os dissidentes do Syriza? Decididamente a realidade política corre hoje muito mais rápido que a análise política, pelo menos na Europa.
Na Espanha, o Podemos surgiu com uma nova força. O partido é uma referência para o movimento de esquerda no mundo de hoje? Por quê?
O Podemos é o partido que na Europa melhor interpretou a crise da democracia esvaziada de cidadania e ocupada por antidemocratas, plutocratas (detentores de dinheiro) e até cleptocratas (ladrões). Fê-lo trazendo para a política os cidadãos que a teoria política (e a esquerda em particular) considerava despolitizados porque não participantes nem em movimentos sociais nem em partidos.
Ora, a grande maioria da população não participa nem nuns nem noutros. E, por vezes, nem sequer vota. Mas isso não significa que não acompanhe a política nacional e não se revolte com a injustiça e a corrupção. Só não vê meios credíveis e eficazes para participar. O Podemos ofereceu-lhe esse meio.
O que o Podemos tem de diferente em relação a partidos de esquerda tradicionais? Como ele deve ser definido? É de esquerda, de centro-esquerda, moderado?
O Podemos é até agora a melhor formulação do que pode ser a esquerda no século 21. Tem de passar por uma reinvenção da esquerda. Esse objetivo faz com que o Podemos nem sequer se reveja na dicotomia esquerda/direita tal como está a esquerda hoje. Mas sabe bem o que é a direita e sabe que a direita está bem porque está no poder e porque tem a seu favor o capitalismo financeiro mundial –o que lhe dá um capital de confiança que nenhum grupo social lhe poderia dar. Nem sequer a burguesia nacional, se é que esse conceito ainda hoje tem validade, dada a internacionalização profunda do capitalismo.
Podemos é o primeiro partido a assumir o que muitos teóricos (eu próprio incluído) defenderam: para levar a sério a articulação entre democracia representativa e democracia participativa, os partidos de esquerda têm de a adotar no seu seio.
A escolha dos programas e dos candidatos tem de ser feita pelos mecanismos de democracia participativa, pelos cidadãos organizados em círculos temáticos ou regionais. Quem ainda se lembra do orçamento participativo de Porto Alegre sabe o que isso é. Foi, aliás, aqui que o Podemos bebeu a inspiração.
O Podemos poderá unificar as esquerdas na Espanha? Quais são os obstáculos para que isso ocorra? E a Esquerda Unida?
Dificilmente, ainda que algum progresso interessante esteja a ser feito neste domínio ao nível das regiões autônomas. Podemos tem feito um esforço notável para essa unificação, o que nem sempre é fácil por ser "a força de câmbio" e não querer perder a sua identidade no meio de outras (velhas) esquerdas. É ainda muito grande o peso da história na esquerda europeia e há muito individualismo egocêntrico disfarçado de diferença política.
A Esquerda Unida saiu derrotada das últimas eleições e busca reconstruir-se numa nova frente popular. Tem um jovem líder que podia estar no Podemos e a quem, aliás, Pablo Iglesias propôs que integrasse a sua lista de candidatos. O aparelho do partido é velho e não responde ao anseio de renovação do seu líder. Mas a Esquerda Unida tem na base muitos quadros que podiam ser preciosos para a implantação sustentável do Podemos.
Quais as semelhanças e diferenças entre o Podemos e o Syriza?
O Podemos é uma emergência dos movimentos dos indignados enquanto o Syriza tem raízes na esquerda mais tradicional. O Syriza nunca ousaria problematizar se é ou não de esquerda. Mas ambos são o resultado de uma conglomeração de forças políticas e movimentos sociais. Ambos viram bem a ameaça do neoliberalismo na Europa e ambos estão a mostrar grande flexibilidade.
Até onde pode ir essa flexibilidade é uma incógnita. Por agora, o Podemos não vai mais longe do que se abrir a uma coligação com o PSOE. Penso que nunca iria tão longe quanto o Syriza na aceitação da austeridade europeia, não só porque a situação na Espanha é muito diferente da grega, como, sobretudo, porque os círculos de cidadãos não permitiriam.
Um desgaste maior do Syriza poderia atingir o Podemos?
Sim. Não diretamente, mas através do peso que terá na opinião pública uma eventual derrota incondicional do Syriza. O objetivo das instituições europeias é liquidar qualquer hipótese de contestação à política de austeridade. Se o Podemos se sair bem nas próximas eleições significará que os cidadãos não se estão a deixar intimidar pela ortodoxia de Bruxelas.
*Desde a queda do Muro de Berlin (antes, talvez), as esquerdas no mundo parecem desnorteadas. O sr. concorda com essa afirmação? Como explicar esse processo? Ele está sendo modificado agora? As esquerdas
estão perdendo uma oportunidade histórica?*
Ao longo do século passado, a esquerda foi constituída pela crença de que havia uma alternativa ao capitalismo. Todas as divisões dentro da esquerda (revolução/reformismo, luta armada/luta pacifica, comunismo/socialismo democrático) partiram da possibilidade dessa alternativa.
Quando, a partir da década de 1960, a social-democracia abandonou a ideia de alternativa ao capitalismo, a sua política passou a centrar-se na ideia de regulação e tributação do capitalismo para permitir a paz social e garantir a justiça social possível através do estado de bem-estar.
A existência do Bloco de Leste fez com que o capitalismo aceitasse o compromisso. Findo o Bloco, não havia mais razões para aceitar limitações tão drásticas à remuneração do capital. A queda de Muro de Berlim não foi apenas o fim do comunismo. Foi também o fim da social-democracia.
Em debate na Espanha, o sr. falou de um movimento ainda embrionário em Portugal. O que ocorre?
Está em curso uma reorganização das forças de esquerda que eventualmente só dará frutos daqui a vários anos. No presente período eleitoral (eleições em 4 de outubro) serão todas punidas (incluindo eventualmente o PS) com a possível exceção do Partido Comunista Português, que tem um eleitorado leal e absorve como nenhum outro o voto de protesto contra a injustiça social.
A punição da esquerda deve-se a três fatores: o PS não se propõe realizar uma política muito diferente da seguida pela coligação de direita no poder; a esquerda-à-esquerda está, por agora, mais dividida que nunca; o governo e as instituições europeias conseguiram convencer os portugueses de que o pior já passou e que a política de austeridade deu certo.
Por agora, Portugal é um caso de sucesso. Sobre o que virá depois das eleições nada se diz.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Paranavai. Quando teremos ciclovias nas ruas centrais?

Paranavai precisa urgente adotar ciclovias nas suas ruas centrais.
As cidades sustentáveis, humanizadas, ofertam às pessoas essa forma de ir e vir. Saudável, livre de poluição, democrática.

Para planejadores municipais interessados em fazer de suas cidades, cidades melhores, sugestão de como devem ser a esperadas ciclovias:

A CICLOVIA IDEAL
Algumas indicações para a segurança de ciclistas e pedestres
Segregação
Em vias com grande tráfego e/ou com limites de velocidade acima de 50 km/h, deve haver barreiras entre a pista de bicicletas e a do demais veículos
Caminho livre
Com ou sem segregação, é preciso restringir a interferência de outros veículos com sinalização e semáforos. Apesar de algumas vias comportarem pedestres e bicicletas, o compartilhamento não é recomendado
Sinalização
Placas e pinturas bem conservadas são essenciais para organizar o fluxo e alertar sobre obstáculos, como postes
Interligação
Local deve atender às demandas de deslocamento dos usuários e estar integrado a outras ciclovias
Superfície
Melhor que seja lisa e em vias sem grande declividade
Fiscalização
O controle das infrações ajuda a evitar acidentes.
Fonte Folha de S.Paulo online.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Paranavaí. Advogado e radialista é novidade na disputa à Prefeitura

O advogado Marcos Antônio Lucas de Lima, radialista, ex bancário e ex árbitro de futebol,  é uma das principais audiências no rádio paranavaiense, nos seus programas Café com Notíciasa partir das 8h15 e Canal Aberto, a partir das 12h, ambos levados ao ar pela FM 101,9.

Eloquente, analisa e opina sobre temas envolvendo as administrações municipais, principalmente. É uma metralhadora giratória.

Ao abordar como faria se fosse Prefeito, defende baixos salários para prefeito, vice e vereadores, mais autoridade, melhores serviços públicos, e recebe uma enxurrada de apoios nas participações ao vivo pelos ouvintes.

Acaba de se desfilhar do Democratas, e tem convite de praticamente todos os partidos para se filiar.
Pode ser uma novidade na disputa à Prefeitura de Paranavai em 2016!

Em companhia de Marcos Antônio Lucas de Lima, âncora os programas o comunicador Rildo Vieira.

Os coronéis e a democracia

O que individuos e dirigentes de entidades devem ler sobre democracia.
"Numa democracia genuína, as pessoas são livres para escolher seus líderes, expressar suas ideias e praticar a sua fé; na qual o compromisso com a justiça econômica e social é realizada mais completamente; na qual as instituições respondem àqueles a que servem; e na qual a sociedade civil é independente e autorizada a florescer", afirmou o Secretário de Estado John Kerry, na abertura da Embaixada estadunidense em Cuba.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

BR376. Paranavaí terá auto-estrada!

De há muito Paranavai e o Noroeste sonham com a BR376 transformada em auto-estrada! Ou pista dupla.
O atento deputado Estadual Tiao Medeiros não perdeu tempo e, valendo-se da experiência como assessor na Assembleia Legislativa, Casa Civil e Porto de Paranaguá, ao chegar eleito à Casa Legislativa paranaense, procurou encontra formas para tornar esse sonho realidade.

Depois de um trabalho de meses em bastidores, hoje o deputado deu contribuição para essa conquista histórica, obtendo do Governador do Paraná, Beto Richa, autorização para essa duplicação de cerca de 35 quilômetros, que beneficiará perto de 500 mil 
pessoas.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Transporte coletivo de Paranavaí entre os mais caros.

A Prefeitura autorizou nova tarifa do transporte coletivo em Paranavaí, a partir desta 4a.feira.
O usuário pagará R$ 2,95. 
Por dia serão R$ 11,80 e por mes, sem contar o domingo R$ 283,20.

Em Cianorte a tarifa é de R$ 2,20.
Em Umuarama R$ 3,10
Em Apucarana e Arapongas, R$ 2,45
Em Francisco Beltrão, R$ 2,80

Tomando cidades de porte equivalente, Paranavaí aplica a segunda maior tarifa de transporte coletivo.